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7:29 PM

Bem...
Ouso aqui escrever minhas memórias, não que já se trate de alguém à beira de partir deste mundo e entregar-se a enfadonha vida dos velhacos que habitam toda a Itália, e porque hei de escrevê-las? Ora para que quando nesta terra meu corpo já não habitar, e nem mais puder ser lembrado pelos colos afoitos das belas e castas damas que beijei, ou mesmo destilem dos lábios das mais ardorosas cortesãs de nossa corte, possa estar gravado na história como as estrelas que cintilam em cada noite de céu estrelada de Veneza. Que possa estar claro quem realmente fui, sem que paire sobre esta certeza nenhuma rusga de dúvidas. E quem sou? Oras sou Giacomo Casanova e toda a corte me conhece como Casanova, e na boca dos mais amigos cintila Nova. E sobre o que sou? Um bom vivant com todo orgulho de dizer. Um homem que sabe acolher para si tudo de belo que a vida lhe pode proporcionar, seja uma noite de boemia regada aos melhores vinhos, seja nos cabarés sorvendo dos beijos das belas senhoras da noite, seja num quarto de convento tendo uma bela noviça a pedir para partir ou ficar. Sou com todas as letras que compõem a palavra mais rica de todo o dicionário. Bom Vivant, Bom Viver, Boa Vida.. Sim.. E a vida não seria por conseguinte bela quando bem aproveitada? Mas ousaria dizer que sou um pouco alem disto. Considero-me um médico. Um médico e por favor não riam. Um médico não daqueles cujo diploma morrerá envelhecido em negras molduras de quadros pálidos. Mas um médico de alegrias. Daqueles que receitam beijos em doses curtas e furtivas, ou mesmo em longas doses se a donzela estiver de cama, ou na cama. Sou daqueles que medicam a alegria em bailar a luz da lua nas margens do rio de Veneza. Dos que aplaudem o sorrir.. E não seria eu um daqueles doutores que curam os corações das jovens castas que esperam de seios arfantes a chegada daquele que seria para sempre seu príncipe encantado? Também daquelas que amargam a vida ao lado de um homem que nada mais enxerga nelas alem de seus piores objetos de desejos fálicos. Curandeiro de infelicidades. E duvido que em toda a Veneza tenha uma única mulher que pude um dia consultar a reclamar de meus atendimentos. Ora não estou sendo maldoso com palavras de baixo calão. Não.. Seria hipocrisia dizerdes isto. O Amor não é algo de baixo calão. A falta deste pois o é. Ora posto que me esteja apresentado, deixo aqui o primeiro registro de todas as situações as quais passei e passarei nesta minha vida, boa vida, e quiçá possa transcrever com esta pena que estou a rabiscar este papel algumas de minhas mais preciosas consultas.
Giacomo Casanova.
Contado por Livro de Histórias
*Esse
é um jogo fictício*
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