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9:52 PM
 Ato I - Na Casa dos Casanova
Na casa dos Casanova, Giacomo e Lupu estão no quarto. - Então me dizes quando haverá de tomar juízo, irmão... – a voz de Lupu sempre grave e forte como a própria postura do rapaz de rosto angular. - Juízo??? – E a voz do jovem loiro se fazia retumbar no próprio quarto como o ressoar das gaivotas que voam livres ao céu. – E será que meu bom irmão poderia me dizer o que vem a ser Juízo? - Indagava enquanto amarrava os finos cordões da calça de sarja preta. – Juízo vem a ser estardes morto, perderes as alegrias da vida? – Caminhava até o irmão, apertando-lhe as severas bochechas num gracejo. – Aahh não.. Não me dizes.. Seria ser como tu és.. Capacho eterno de nosso pai. Que vive uma vida morta, sem graça ou fé... Não meu irmão, sendo assim o que quer que me ocorras, devo advertir-lhe.. Eu não tomarei tal remédio que me receitas sem bula. – E deixava um beijo estalado na face do irmão, passando por ele para sentar à cama e calçar as botas. - Então achas que isto que vives é a vida, Giacomo? – Lupu caminhava até ele limpando o rosto que o meio-irmão, com uma expressão de quem transmite uma reclamação a uma criança travessa. – Não vês que nosso pai se desgosta a cada dia que um novo rumor sobre tu surges? A cada dia que se confirma esta tua sandice em buscar as saias das damas? Giacomo vestia a camisa, apressadamente, tinha pouco tempo antes que o sol viesse a se esconder nas margens do rio de Veneza, o que consequentemente lhe daria início a mais uma aventura pelos telhados da casa em busca do convento. - Ora.. Ora.. Não me venhas a ralhar você também, Lupu!! – E a expressão tornava-se divertidamente séria – Pois me responda meu amado irmão, se há, em toda Veneza lugar melhor para visitar que não as saias das formosas damas que habitam nossa bela cidade. – Deixava-se sorrir arqueando a sobrancelha como quem espera a resposta de uma pergunta que ele mesmo daria – Pois te digo!! Claro que há!!! Visitar o que se há por baixo das saias das formosas damas de toda Veneza.. E é esta formosa e encantadora incauta beleza que estou a ir buscar nesta exata hora que se aproxima. Para Lupu não havia salvação. Seu meio-irmão pouco se importava com vil metais. E não havia meio que pudesse fazer para que persuadisse Giacomo a agir como um homem de bem, não como o garoto do qual o velho Don Diacomo recebia queixas e mais queixas a cada novo amanhecer, após a cidade ter noticia de mais uma fuga inescrupulosa de Giacomo pelos telhados de Veneza. Respirava exasperado enquanto via o irmão acabar de aprontar-se. - Pois hoje.. Só hoje eu vos peço, meu irmão. Que não vá ao encontro das doces damas da corte. Que me acompanhes ao Clube. O jovem duque Paprizzio estará chegando hoje a Veneza por conta de seu noivado com a filha dos Bruni. E aqueles malditos Bruni bem sabem fazer um negócio. Paprizzio é o dono do maior porto de Veneza. O velhaco Bruni sabe fazer negócios eu hei de concordar. Está a casar a filha com Paprizzio, justamente quando o duque iria aceitar nossa oferta. Giacomo erguia-se, deixando os olhos claramente verdes pousarem sobre os escuros do meio irmão, enquanto buscava sobre a cadeira disposta ao lado da janela a capa preta para amarrar aos ombros. - Lupu.. Eu não creio.. – Respondia incrédulo como quem realmente prestava atenção na conversa de teor financeiro e político de seu meio-irmão. – Não creio que o velho Bruni – e falava com uma expressão caricata de nojo o nome da família rival de seu pai. – Que ele vai ser capaz de um jogo sujo como este contra nós.. – apontava para o próprio peito enquanto abraçava o irmão pelos ombros conduzindo-o para fora do quarto, fechando a porta atrás de si, olhando com uma seriedade grotesca para a expressão de desolo do irmão. – E eu te pergunto, meu adorado irmão... – Caminhava descendo a escada em semi espiral que dava acesso ao primeiro andar da pomposa residência dos Casanova no centro de Veneza. – O que eu, um pobre Casanova, tenho a ver com isto? Se o velho Bruni quer vender a filha tal como se fazem com as cortesãs de Veneza, que posso eu fazer a respeito disto? A pobre donzela deve ser mais feia do que a própria necessidade de comer, para se prestar a um papel como este. Eu mesmo não me recordo de tê-la visto em algum baile, ou jantares. Deve ser feia e manca como os ogros que habitam as historias para espantar criancinhas, porque convenhamos, o próprio Paprizzio é um garoto. Uma criança que brinca de ser rei, e ora meu irmão, é um chato!!! Azar dos Bruni se o querem de parente. - Giacomo!!! Será que tudo para ti é brincadeira?! – Lupu irritava-se se soltando do irmão ao atingir o primeiro andar. – Eu preocupado com os assuntos de família e tu preocupado em galhofar sobre a beleza ou falta de atributos da Bruni? Giacomo ria solto, fazendo uma referencia diante do irmão ao soltá-lo. - Pois bem.. Farei como me pedes, e isto posto apenas por que és meu prestimoso irmão. Hoje e excepcionalmente hoje, não irei à casa de nenhuma donzela venezience.. Não estarei nos salões a ciscar por uma nova gaivota. Hoje e tão somente hoje, hm? Lupu sorria de canto, ao menos isto, ao menos tinha conseguido um progresso com seu irmão e mal poderia acreditar. - Então não vais saracotear vadiagem pelas ruas de Veneza? E para ondes vais tão apressado? Esspera-me arrumar e irei contigo ao clube para encontrarmos com Paprizzio. Ainda a caminhar de costas para porta e de frente para o irmão esticava a mão retirando o chapéu do cabideiro próximo à porta e colocando-o sobre os louros cabelos. - Eu disse que não iria aos salões.. Mas também não disse que iria remoer-me de tédio no clube em companhia de chatos como Paprizzio.. Irei ao convento, beijar a pele de uma bela noviça que me sorriu de forma nada religiosa quando meu deu seu horário de recolher.. – e ria virando-se de vez sem dar tempo ao irmão de rebater qualquer meia palavra que tivesse dito naquele momento e esbarrando na mulher elegantemente vestida que acabava por entrar pela porta da casa principal. - Giacomo, meu filho aonde vais com tanta pressa? – A mulher sorria em ver o rosto avermelhado do filho ao esbarrar-se nela, apoiando-se nos braços do belo rapaz que a sustentaram evitando a queda e puxando-a para junto de si. - Viver a vida mamãe.. Vou encontrar-me com nosso senhor.. – ria gostosamente enquanto deixava um beijo estalado no rosto da mãe. – Mas se ele não me atender.. Garanto que a filha dele me receberá de..... Ahn.. Braços abertos.. – piscava para a mãe enquanto recebia um bater de leque no ombros e saia pelos jardins para alcançar a saída da casa e a carruagem que passava pela frente naquele momento, conseguindo o impulso certeiro para subir no veículo em movimento. - Para o convento Saint Germain!!!
Contado por Livro de Histórias
*Esse
é um jogo fictício*
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